Pais desesperados admitem colocar anúncio: “Procura-se professor primário”
Uma turma do 4.º ano de uma escola de Lisboa continua sem professor desde o início das aulas. Sem uma solução definitiva, os 19 alunos foram distribuídos por outras turmas e a situação está causando preocupação entre as famílias.
O caso acontece na turma B do 4.º ano da Escola Básica Rainha Santa Isabel, em Lisboa. Diante da demora para a colocação de um docente, um dos pais chegou a considerar a publicação de um anúncio no jornal PÚBLICO com uma mensagem direta: “Procura-se professor primário”.
Alunos foram distribuídos por outras turmas
Segundo José Cunha, que se tornou porta-voz dos pais, as famílias receberam um e-mail informando sobre a falta do professor apenas por volta das 22h, na véspera do início do ano letivo.
Desde então, de acordo com o relato, a situação não foi resolvida.
As 19 crianças da turma acabaram sendo distribuídas por turmas do 2.º, 3.º e 4.º anos. Um pequeno grupo conseguiu permanecer em outra turma do 4.º ano, enquanto os demais alunos passam parte do período escolar realizando fichas de exercícios.
A situação preocupa principalmente as famílias de crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem.
“Há pais desesperados, principalmente quando os filhos têm dificuldades de aprendizagem”, afirmou José Cunha à Lusa.
Pais tentam encontrar professor por conta própria
Sem uma solução para a turma, José Cunha começou a procurar alternativas por iniciativa própria.
Segundo ele, amigos, familiares e conhecidos estão sendo contatados na esperança de encontrar alguém interessado em assumir as aulas das 19 crianças.
A situação chegou ao ponto de o pai considerar publicar um anúncio no jornal com a frase:
“Procura-se professor primário.”
De acordo com José Cunha, o professor responsável pela turma no ano letivo anterior era muito querido pelas famílias e pelos estudantes. Neste ano, a vaga chegou a ser preenchida por uma professora do Porto, mas ela apresentou baixa e não deverá permanecer.
Para o representante dos pais, a turma enfrenta agora um cenário particularmente difícil devido à falta de professores e à existência de vagas que continuam sem ser preenchidas.
Cerca de 2 mil horários ainda estavam por preencher
A situação da Escola Básica Rainha Santa Isabel acontece em meio a um problema mais amplo no sistema de ensino português.
Segundo informações apresentadas no Parlamento pelo ministro da Educação, Fernando Alexandre, cerca de seis mil professores apresentaram baixa médica ou estão sem serviços moderados desde o início do ano letivo.
O ministro também informou que, no início desta semana, ainda existiam cerca de dois mil horários por preencher, principalmente em escolas de Lisboa e da Península de Setúbal.
Em algumas escolas, coordenadores assumem temporariamente as turmas que estão sem professor. No caso da Rainha Santa Isabel, porém, a coordenadora enfrenta um problema de saúde que a impede de assumir essa função, segundo o relato de José Cunha.
Escola e Ministério da Educação foram questionados
A Lusa questionou a escola sobre os motivos que fazem a turma permanecer sem professor e sobre como está sendo garantido o acompanhamento pedagógico dos estudantes, mas ainda não havia recebido resposta.
O caso também levanta dúvidas entre os pais sobre o novo mecanismo anunciado pelo Ministério da Educação, que permitiria às escolas resolver problemas de colocação de professores de forma mais rápida.
Segundo José Cunha, durante reuniões com os responsáveis pelos alunos, foi informado que algumas vagas abertas pela direção na plataforma ainda não haviam sido validadas pelo Ministério da Educação. Com isso, professores interessados não poderiam se candidatar às vagas.
O pai também afirmou que foram encontrados dois professores aposentados interessados em assumir a turma. No entanto, segundo o relato, a direção escolar informou que ainda não tinha autorização do ministério para recorrer a esses profissionais.
A Lusa também questionou o Ministério da Educação sobre essas situações, mas ainda não havia obtido resposta. Também permanece sem resposta o número total de turmas do 1.º ciclo que estão atualmente sem professor em Portugal.
Falta de professores preocupa sindicatos
A Fenprof tem alertado para a falta de docentes no 1.º ciclo e afirma que o problema está se agravando.
De acordo com o sindicato, neste ano faltavam 175 professores somente no distrito de Lisboa. No ano anterior, eram 112.
Para as famílias afetadas, a falta de docentes vai além das dificuldades pedagógicas e começa a influenciar até mesmo a decisão sobre manter ou não os filhos no ensino público.
Um dos pais relatou que o filho já havia enfrentado uma situação semelhante no 1.º ano, quando ficou sem professor até dezembro. Na ocasião, a família chegou a considerar a mudança para o ensino privado, mas decidiu permanecer na escola pública.
Agora, diante de um novo período de incerteza, algumas famílias voltam a considerar essa possibilidade.
O caso da turma B da Escola Básica Rainha Santa Isabel mostra o impacto que a falta de professores pode ter diretamente na rotina das crianças e de suas famílias, enquanto pais aguardam uma solução que permita aos 19 alunos voltar a ter um professor responsável pela turma.
Fonte: Lusa / PÚBLICO
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