Mais de 50% dos imigrantes qualificados trabalham abaixo da sua formação em Portugal, aponta estudo
Pesquisa revela que 52,3% dos trabalhadores de fora da União Europeia com ensino superior ocupam empregos abaixo de suas qualificações. Burocracia no reconhecimento de diplomas, contratos instáveis e desigualdades no mercado de trabalho estão entre os principais desafios.
Ter um diploma universitário e experiência profissional nem sempre é suficiente para conseguir um emprego na área de formação em Portugal. Muitos imigrantes que chegam ao país em busca de melhores oportunidades acabam trabalhando em funções que não correspondem às suas qualificações.
Professoras trabalhando em restaurantes, enfermeiras atuando como cuidadoras de idosos e profissionais formados em fisioterapia ou administração dirigindo veículos de transporte por aplicativo (TVDE) são alguns exemplos dessa realidade.
Um estudo do Observatório das Migrações revela que, em 2025, 52,3% dos cidadãos de países de fora da União Europeia com ensino superior estavam empregados em funções abaixo de suas qualificações em Portugal.
Entre os trabalhadores portugueses, esse percentual era de apenas 14,1%.
Portugal apresenta desigualdade superior à média europeia
Os números mostram que o problema é mais acentuado em Portugal do que na média da União Europeia.
Enquanto a taxa de sobrequalificação dos imigrantes de países terceiros chega a 52,3% em Portugal, a média europeia é de 41,4%.
Veja a comparação:
| Trabalhadores com ensino superior | Portugal | União Europeia |
|---|---|---|
| Cidadãos de países de fora da UE | 52,3% | 41,4% |
| Cidadãos nacionais | 14,1% | 20,0% |
Isso significa que, em Portugal, a proporção de trabalhadores sobrequalificados entre os cidadãos de países terceiros é 3,7 vezes maior do que entre os portugueses. Na média europeia, essa relação é de aproximadamente duas vezes.
Segundo o Eurostat, Portugal está entre os países europeus com taxas elevadas de sobrequalificação, ao lado de Chéquia, Estônia, Espanha e Itália.
Reconhecimento de diplomas é um dos principais obstáculos
Uma das principais dificuldades enfrentadas pelos imigrantes é a burocracia para conseguir o reconhecimento de diplomas e qualificações profissionais.
Mesmo com formação superior e experiência na profissão, muitos estrangeiros encontram obstáculos para exercer suas atividades em Portugal, especialmente em áreas regulamentadas.
O estudo destaca que simplificar e acelerar esses processos poderia trazer benefícios imediatos para a economia portuguesa.
Entre as áreas que poderiam ser beneficiadas estão:
- Saúde, incluindo profissões que exigem reconhecimento e autorização para exercício profissional.
- Engenharia, setor que necessita de profissionais qualificados.
- Educação, área em que profissionais estrangeiros também enfrentam exigências para exercer determinadas funções.
A avaliação do observatório é que aproveitar melhor a formação dos imigrantes ajudaria a responder à falta de profissionais qualificados em diferentes setores.
Mulheres imigrantes enfrentam desafios no mercado de trabalho
O levantamento também apresenta dados importantes sobre a participação das mulheres estrangeiras no mercado de trabalho português.
Em 2025, a taxa de emprego das mulheres nascidas fora da União Europeia foi de 71,3%, exatamente o mesmo percentual registrado entre as mulheres nascidas em Portugal.
Na média europeia, entretanto, a diferença foi maior: 57,4% das mulheres imigrantes estavam empregadas, contra 67,9% das nativas.
Portugal também apresentou a menor diferença entre as taxas de emprego de homens e mulheres nascidos fora da União Europeia entre os 20 países analisados: 9,1 pontos percentuais, diante de uma média europeia de 17,5 pontos.
Apesar desses resultados, as desigualdades ainda persistem.
Entre as mulheres estrangeiras de 25 a 64 anos, a taxa de emprego aumentou de 68,5% em 2024 para 75,2% em 2025. Mesmo assim, permaneceu abaixo dos 80,5% registrados entre as portuguesas.
O desemprego também foi mais elevado entre as estrangeiras.
Em 2025, a taxa de desemprego das mulheres estrangeiras chegou a 12%, mais do que o dobro dos 5,1% registrados entre as portuguesas.
Esses números mostram que, embora Portugal apresente indicadores mais favoráveis do que a média europeia em alguns aspectos, as mulheres imigrantes ainda enfrentam dificuldades para conquistar estabilidade profissional.
Imigrantes estão concentrados em determinados setores
Outro ponto destacado pelo estudo é a concentração de trabalhadores estrangeiros em atividades que nem sempre exigem formação superior.
Entre os setores com maior presença de imigrantes estão as atividades administrativas e serviços de apoio, alojamento e restauração, agricultura e profissões não qualificadas.
Essa concentração ajuda a explicar por que tantos profissionais estrangeiros acabam exercendo atividades diferentes daquelas para as quais estudaram.
O problema não está apenas na dificuldade de encontrar emprego, mas também na falta de oportunidades compatíveis com a formação e a experiência de cada trabalhador.
Contratos temporários e risco de pobreza preocupam
Ter um emprego não significa necessariamente ter boas condições de trabalho.
O estudo revela que os trabalhadores estrangeiros enfrentam maior instabilidade profissional e estão mais expostos ao risco de pobreza, mesmo quando possuem uma ocupação.
Os imigrantes apresentam uma proporção de contratos temporários 2,5 vezes maior do que os trabalhadores nacionais.
Outro dado preocupante é que, em 2025, 17,8% dos estrangeiros empregados estavam em risco de pobreza, percentual mais de duas vezes superior ao registrado entre os portugueses.
Isso demonstra que estar empregado nem sempre garante uma renda suficiente para enfrentar as despesas do dia a dia.
O levantamento também indica que os imigrantes tendem a permanecer menos tempo desempregados, embora isso não signifique necessariamente que consigam melhores condições de trabalho.
O que pode mudar para melhorar a situação dos imigrantes?
Diante dos resultados, o Observatório das Migrações apresenta recomendações para melhorar a integração profissional dos estrangeiros em Portugal.
1. Acelerar o reconhecimento de diplomas
Reduzir a burocracia e o tempo necessário para reconhecer formações acadêmicas e permitir o acesso às profissões regulamentadas.
2. Criar oportunidades de crescimento profissional
Investir em formações de curta duração, certificação de competências e mecanismos que permitam aos trabalhadores evoluir para funções compatíveis com suas qualificações.
3. Ampliar o apoio às mulheres imigrantes
Reforçar os serviços de apoio à infância, facilitar a conciliação entre trabalho e família e oferecer ensino de português às mulheres que não falam o idioma.
O acompanhamento pelos serviços de emprego também é apontado como uma medida importante.
4. Facilitar a entrada de profissionais qualificados
Criar canais de imigração que atendam também à procura por trabalhadores especializados, permitindo uma melhor correspondência entre formação profissional e oportunidades disponíveis.
Portugal precisa aproveitar melhor os profissionais estrangeiros
Os resultados do estudo mostram que Portugal consegue integrar uma parcela significativa da população imigrante ao mercado de trabalho, mas ainda enfrenta dificuldades para aproveitar plenamente suas qualificações.
A burocracia no reconhecimento de diplomas, a concentração em empregos menos qualificados e a instabilidade dos contratos continuam sendo obstáculos importantes.
Para os imigrantes, isso representa não apenas uma dificuldade financeira, mas também a necessidade de reconstruir trajetórias profissionais, muitas vezes deixando de lado anos de estudo e experiência.
Já para Portugal, o desafio é transformar a presença desses trabalhadores em uma oportunidade de desenvolvimento econômico, valorizando conhecimentos e competências que já existem no país.
E você, já precisou trabalhar fora da sua área de formação depois de chegar a Portugal?
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Fonte: DN Brasil, com informações do estudo do Observatório das Migrações e dados do Eurostat.
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