Morre Maricarmen Abascal, idosa que virou símbolo da crise habitacional na Espanha após ser despejada
Aos 87 anos, ela morreu em um hospital de Madri; seu caso mobilizou milhares de pessoas e ampliou o debate sobre moradia e despejos no país
Maricarmen Abascal, de 87 anos, morreu nesta quarta-feira no Hospital Gregorio Marañón, em Madri. A idosa havia se tornado um dos principais símbolos da crise habitacional na Espanha depois de ser despejada, há duas semanas, do apartamento onde viveu durante 70 anos.
A morte foi anunciada pelo Sindicato de Inquilinos e Inquilinas de Madri, organização que acompanhou o caso e participou das mobilizações contra os despejos no país.
Em uma mensagem publicada nas redes sociais, o sindicato destacou o legado deixado por Maricarmen e relembrou um dos pedidos feitos por ela durante a mobilização:
“Lutem, continuem lutando pelo que é de vocês.”
O caso provocou forte comoção e levou milhares de pessoas às ruas nas últimas semanas. Os protestos denunciaram principalmente o aumento dos custos de moradia e as dificuldades enfrentadas por quem depende de aluguel na Espanha.
Também nesta quarta-feira, os principais sindicatos espanhóis convocaram uma greve geral para 11 de novembro. Entre as principais reivindicações estão melhores salários e o direito à moradia digna. A paralisação acontecerá a menos de três semanas das eleições gerais antecipadas.
Caso pressionou governo espanhol a tomar medidas
Depois de dias de protestos em Madri, Barcelona e outras cidades, o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciou medidas emergenciais para enfrentar a crise habitacional.
Entre elas estavam a suspensão, até 2030, dos despejos de inquilinos considerados vulneráveis e mudanças nas regras de renovação dos contratos de aluguel.
Os dois decretos, no entanto, foram rejeitados pelo Congresso. Após a derrota, o governo convocou eleições gerais antecipadas para 29 de novembro. A votação estava inicialmente prevista para 2027.
Na última terça-feira, Sánchez anunciou que apresentará novamente ao Congresso dois decretos relacionados à habitação. A nova proposta inclui empréstimos de até € 50 mil, aproximadamente R$ 280 mil na cotação mencionada, sem cobrança de juros para a compra da casa própria.
Desta vez, os textos deverão ser analisados por uma comissão especial, em vez de serem submetidos diretamente ao plenário de 350 deputados.
O governo também anunciou medidas para regulamentar os imóveis destinados ao aluguel por temporada. A intenção é aumentar a tributação sobre imóveis utilizados para fins turísticos e combater a especulação no setor.
O pacote anteriormente rejeitado também previa a prorrogação por dois anos de contratos que terminariam antes de 2028, renovação automática dos aluguéis sem aumento dos preços, aumento de impostos sobre apartamentos turísticos e restrições à compra de imóveis residenciais por grandes fundos.
Maricarmen viveu 70 anos no mesmo apartamento
A história de Maricarmen ganhou repercussão nacional principalmente pelas circunstâncias do despejo.
Ela chegou ao apartamento localizado no bairro do Retiro, em Madri, em 1956, ainda criança. Na época, seu pai assinou o contrato de aluguel. Depois da morte dos pais, Maricarmen assumiu a locação e continuou vivendo no imóvel.
Ao todo, foram 70 anos no mesmo endereço.
O conflito começou em 2018, após uma mudança na propriedade do prédio. Uma incorporadora passou a pressionar a aposentada para comprar o apartamento por € 247 mil, valor que ela não tinha condições de pagar.
Após a recusa, Maricarmen foi comunicada sobre um aumento de 275% no aluguel.
O valor mensal, que era de aproximadamente € 500, chegou a € 1.650. A aposentada, por sua vez, recebia uma pensão de cerca de € 1.350 por mês. Segundo as informações divulgadas durante a disputa, ela continuou pagando o aluguel.
Posteriormente, o imóvel passou para a Urbagestión e a discussão sobre a validade do contrato chegou à Justiça.
Com apoio do Sindicato de Inquilinos, Maricarmen conseguiu decisões favoráveis em diferentes momentos. A empresa, entretanto, continuou recorrendo até obter uma decisão favorável no Tribunal Supremo.
Tentativas de despejo mobilizaram vizinhos e ativistas
A primeira tentativa de retirar Maricarmen do apartamento aconteceu em outubro de 2025, mas a mobilização de vizinhos e integrantes do Sindicato dos Inquilinos conseguiu impedir a retirada.
Outras duas tentativas, previstas para junho deste ano, também foram adiadas.
Durante o processo, o Comitê da ONU solicitou a suspensão do despejo até que uma alternativa habitacional adequada fosse garantida para a aposentada.
A quarta tentativa ocorreu em 23 de setembro.
Naquele dia, autoridades foram até o prédio no bairro do Retiro para cumprir a ordem judicial. Vizinhos e ativistas também se reuniram no local para tentar impedir a retirada.
Por volta das 13h05, Maricarmen deixou o imóvel em uma maca e foi transportada de ambulância para um hospital por causa de seu estado de saúde.
As imagens do momento provocaram grande repercussão na Espanha e ajudaram a transformar o caso em símbolo da luta pelo direito à moradia.
Ainda hospitalizada, Maricarmen enviou uma mensagem aos manifestantes por meio de um vídeo divulgado pelo Sindicato de Inquilinas e Inquilinos:
“Peço a todos coragem, lutar, defender o que é de vocês.”
Caso expôs um problema que vai além da Espanha
A situação de Maricarmen também trouxe novamente ao centro do debate um problema enfrentado por diferentes países europeus.
Especialistas apontam que a crise habitacional não está relacionada somente à falta de imóveis. A transformação de propriedades residenciais em ativos financeiros ou imóveis destinados ao turismo também pode reduzir a oferta disponível para moradores e pressionar os preços.
O problema atinge especialmente famílias de baixa renda, jovens, estrangeiros e idosos.
Cidades como Paris, Praga e Berlim vêm adotando diferentes estratégias para enfrentar a questão, enquanto a União Europeia começa a discutir respostas mais amplas para a crise.
Durante um dos acampamentos de protesto realizados em Madri, a manifestante Beatríz Blanco relatou a situação de uma mulher de 65 anos que precisou voltar a morar com a filha porque já não conseguia pagar o aluguel.
“Não podemos viver, não podemos ter um teto onde ficar. É uma situação completamente insustentável”, afirmou.
Um símbolo da luta por moradia digna
A morte de Maricarmen acontece justamente quando a Espanha vive um intenso debate político e social sobre acesso à habitação.
A idosa que passou sete décadas no mesmo endereço acabou se tornando, nas últimas semanas de sua vida, um dos rostos mais conhecidos da mobilização contra os despejos e o aumento dos preços dos aluguéis.
Seu caso ultrapassou uma disputa individual por um apartamento e passou a representar as dificuldades enfrentadas por milhares de pessoas que tentam permanecer em suas casas diante do aumento do custo da moradia.
Agora, sua história permanece como parte de um debate que deve continuar ocupando as ruas, o Parlamento e a campanha para as eleições gerais antecipadas de 29 de novembro.
Fonte: O GLOBO
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