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Brasileiros desistem de investir em Portugal e retornam ao Brasil após enfrentarem impasses na documentação

Por Amigos em Coimbra
25/07/2026 às 13:30
Brasileiros desistem de investir em Portugal e retornam ao Brasil após enfrentarem impasses na documentação

O sonho de empreender em Portugal acabou dando lugar à decisão de recomeçar no Brasil para o casal Leandro Siqueira e Syntya Moreira. Após cinco anos vivendo no país europeu e planejando investir no setor hoteleiro na região de Aveiro, eles decidiram retornar ao Brasil alegando insegurança jurídica, demora na regularização migratória e excesso de burocracia.

Segundo os empreendedores, cerca de 40 mil euros haviam sido reservados para dar início ao investimento em Portugal. No entanto, diante das dificuldades enfrentadas ao longo do processo de residência, optaram por levar o capital de volta ao Brasil.

Um projeto pensado para investir em Portugal

Leandro e Syntya chegaram a Portugal em 2020 com um objetivo bem definido: aproveitar a experiência adquirida no setor hoteleiro brasileiro para abrir um negócio no mercado europeu.

Antes de investir, o casal buscou qualificação profissional em gestão hoteleira em Portugal e estudou detalhadamente o funcionamento do mercado local. Na época, fatores como o câmbio mais favorável e a expectativa de um processo migratório mais rápido influenciaram a decisão.

Segundo Leandro, naquele período os processos de documentação eram mais ágeis e os prazos costumavam ser cumpridos pelo governo português, cenário que, segundo ele, mudou significativamente nos últimos anos.

Cresce o número de brasileiros que retornam ao país

A experiência do casal acompanha uma tendência observada nos últimos anos.

Dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM) mostram que o número de brasileiros que retornaram ao Brasil por meio do programa de retorno voluntário passou de 149 pessoas em 2024 para 289 em 2025, praticamente dobrando no período.

Considerando todas as nacionalidades, os retornos assistidos aumentaram de 161 para 348 no mesmo intervalo.

Já a Polícia de Segurança Pública (PSP) informou que, desde agosto de 2025, mais de mil imigrantes deixaram Portugal pelo programa de retorno voluntário, sendo a maioria brasileiros.

O embaixador Alessandro Candeas, chefe do Consulado-Geral do Brasil em Lisboa, também afirmou que aumentou o número de brasileiros que procuram o consulado manifestando interesse em retornar definitivamente ao Brasil.

Documentação e burocracia estão entre os principais motivos

Portugal abriga atualmente quase 600 mil brasileiros, formando a segunda maior comunidade brasileira fora do Brasil.

Entretanto, diferentes fatores têm levado parte dessa população a repensar a permanência no país. Entre eles estão:

  • demora na emissão da documentação;
  • aluguéis elevados;
  • salários considerados baixos;
  • excesso de burocracia;
  • crescimento da extrema-direita.

Mesmo após a força-tarefa realizada pela Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) entre setembro de 2024 e dezembro de 2025 para reduzir os processos pendentes de autorização de residência, a Ordem dos Advogados informou que ainda existem cerca de 200 mil processos judiciais envolvendo a agência.

Além disso, o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) aponta que, em 2025, Portugal notificou 23.134 imigrantes para deixarem voluntariamente o país, um aumento de 5.080% em comparação com 2024. Os brasileiros também lideraram as recusas de entrada nos aeroportos portugueses.

“Vivemos em um limbo jurídico”

Ao explicar sua decisão, Leandro afirma que a palavra que melhor resume sua experiência é “limbo”.

Segundo ele, mesmo com documentos emitidos pelo próprio Estado português, nem sempre existe reconhecimento por parte das autoridades, o que gera insegurança sobre a própria condição migratória.

Embora tenham chegado ao país com visto e perfil de investidores, o casal aguardou quase dois anos pela autorização de residência, enfrentando uma espera semelhante à de pessoas que iniciaram o processo sem visto.

Na avaliação do empresário, falta previsibilidade para quem deseja investir.

Ele afirma que nenhum empreendedor se sente confortável em aplicar recursos sem segurança jurídica, especialmente quando existe o receio de que o patrimônio possa ficar comprometido caso ocorram problemas relacionados ao status migratório.

Diferenças entre empreender no Brasil e em Portugal

Durante os anos em Portugal, o casal também analisou profundamente o funcionamento da hotelaria portuguesa.

Leandro acredita que a burocracia cria obstáculos para pequenos empreendedores, já que as exigências para transformar um imóvel em alojamento local seriam semelhantes às impostas a grandes redes hoteleiras.

Ele compara esse cenário ao Brasil, onde programas como o Microempreendedor Individual (MEI) permitem que pequenos negócios iniciem suas atividades com um processo mais simplificado.

Syntya compartilha da mesma percepção e afirma que sentiu pouca abertura para inovação no mercado português, especialmente para quem deseja oferecer um atendimento mais personalizado.

Segundo ela, iniciativas simples voltadas ao acolhimento dos hóspedes muitas vezes surpreendiam clientes justamente por fugirem do padrão encontrado com frequência.

Para o casal, enquanto parte da hotelaria europeia valoriza tradição, patrimônio e estética, muitos pequenos empreendimentos brasileiros conseguem se destacar pelo atendimento próximo e pela experiência personalizada oferecida aos visitantes.

O retorno à Paraíba

De volta ao Brasil, Leandro e Syntya pretendem ampliar as atividades da Pousada Belém, localizada em Campina Grande (PB), empreendimento que permaneceu funcionando durante todo o período em que viveram em Portugal.

A estratégia inclui transformar imóveis anteriormente destinados à locação tradicional em hospedagens por temporada.

O casal também destaca programas brasileiros de incentivo ao pequeno empreendedor e linhas de crédito voltadas ao turismo, como o Fundo Geral do Turismo (Fungetur), que, segundo eles, oferecem melhores condições para expansão dos negócios, mesmo considerando os juros mais elevados existentes no Brasil.

“Não investimos onde nosso dinheiro não é cidadão”

Para Leandro, o principal fator que motivou a decisão de voltar ao Brasil não foi o câmbio nem o custo do crédito.

Segundo ele, a ausência de uma situação documental estável foi determinante para desistir do investimento em Portugal.

Na visão do empresário, investir exige segurança jurídica e previsibilidade, algo que considera indispensável para proteger o patrimônio construído ao longo dos anos.

Ao justificar a escolha pelo retorno, ele resume a decisão com a frase que marcou sua experiência:

“Não vou investir meu dinheiro onde meu dinheiro não é cidadão pleno.”

Fonte: publico.pt

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