O dia em que Portugal “assinou o divórcio” com o Brasil
Independência foi proclamada em 1822, mas Portugal só reconheceu oficialmente o Brasil três anos depois — e o acordo envolveu o pagamento de 2 milhões de libras esterlinas
Quando Dom Pedro declarou a Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, a separação de Portugal estava proclamada. Mas havia um problema que nenhum grito às margens do Ipiranga poderia resolver: Portugal ainda não reconhecia o Brasil como um país independente.
Na prática, a ruptura política já havia começado, mas ainda precisava ser transformada em uma realidade diplomática.
Isso aconteceu três anos depois, em 29 de agosto de 1825, quando Brasil e Portugal formalizaram, no Rio de Janeiro, o acordo pelo qual a antiga metrópole reconhecia o Brasil como um império independente.
Era o chamado Tratado do Rio de Janeiro, também conhecido como Tratado Luso-Brasileiro e Tratado de Paz, Amizade e Aliança.
Foi uma espécie de “divórcio oficial” entre Brasil e Portugal, assinado três anos depois da separação proclamada em 1822. O reconhecimento internacional brasileiro, porém, já vinha sendo construído gradualmente.
E esse divórcio teve uma conta bastante elevada: 2 milhões de libras esterlinas.
A Independência não terminou no Ipiranga
A imagem de Dom Pedro proclamando a Independência às margens do Rio Ipiranga se tornou um dos maiores símbolos da história brasileira. Mas o processo de separação foi muito mais complexo.
Depois de 1822, forças portuguesas ainda resistiram à Independência em algumas partes do território. Ao mesmo tempo, o novo governo brasileiro precisava convencer outros países e potências da época a reconhecerem o Brasil como um Estado soberano.
Portugal também enfrentava um grande dilema.
Reconhecer a independência significava abrir mão da parte mais valiosa do antigo império português. Para o Brasil, por outro lado, não bastava Dom Pedro declarar a criação do novo país. Era necessário que outras monarquias e potências internacionais aceitassem essa nova realidade.
As negociações envolveram Lisboa, Londres e Rio de Janeiro e contaram com participação decisiva da Grã-Bretanha, a maior potência econômica e naval daquele período.
O diplomata britânico Sir Charles Stuart atuou como mediador e, em nome de Dom João VI, assinou o tratado de reconhecimento.
Portugal, no entanto, não sairia dessa negociação de mãos vazias.
Dom João VI reconheceu o Brasil, mas manteve um título para si
O tratado tinha uma particularidade que mostrava como aquela separação também envolvia uma delicada relação entre pai e filho.
Dom João VI reconhecia o Brasil como um Império independente e Dom Pedro como imperador.
Ao mesmo tempo, o monarca português reservava para si, pessoalmente, o título de imperador.
Era uma solução diplomática que permitia ao rei português aceitar a perda do território sem apresentar a decisão simplesmente como uma derrota diante do próprio filho.
Na prática, porém, a soberania passava definitivamente para o Brasil.
Mas havia outra questão importante na negociação, e ela era muito menos simbólica: dinheiro.
Brasil concordou em pagar 2 milhões de libras esterlinas a Portugal
Como parte do acordo, o Brasil concordou em pagar 2 milhões de libras esterlinas a Portugal.
Era uma enorme quantia para um país recém-formado e que já enfrentava graves dificuldades financeiras.
O valor foi levantado no mercado financeiro de Londres. A operação criou uma situação bastante curiosa: a Grã-Bretanha ajudava a intermediar a separação entre Brasil e Portugal enquanto o governo brasileiro recorria ao mercado londrino para conseguir recursos destinados ao pagamento da indenização.
Com isso, o novo país ampliava ainda mais sua exposição ao capital britânico.
Existe, entretanto, uma correção histórica importante.
É comum encontrar a afirmação de que esse pagamento teria criado a primeira dívida externa brasileira. Mas o Brasil já havia recorrido ao mercado financeiro de Londres em 1824.
Naquele ano, o país contratou seus primeiros empréstimos públicos externos para enfrentar as dificuldades financeiras do novo Estado e as despesas relacionadas ao processo de Independência.
Portanto, a indenização acertada posteriormente com Portugal não criou a primeira dívida externa do Brasil, mas aprofundou a relação financeira do país com o capital britânico.
A Inglaterra também tinha seus próprios interesses
A participação britânica nas negociações estava longe de representar apenas um gesto de amizade entre países.
A Grã-Bretanha tinha fortes interesses econômicos no Brasil e queria preservar e ampliar seu acesso ao mercado brasileiro.
Desde a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, os britânicos haviam conquistado uma posição privilegiada no comércio com o Brasil.
Por isso, estabilizar e obter o reconhecimento do novo país também interessava diretamente a Londres.
Essa influência britânica continuaria aparecendo nas relações internacionais brasileiras nos anos seguintes.
Em 1827, Brasil e Grã-Bretanha assinariam um novo tratado, que preservava vantagens tarifárias para os produtos britânicos e tratava também de outras questões sensíveis da relação entre os dois países.
Um “divórcio” que mudou a relação entre Brasil e Portugal
O Tratado do Rio de Janeiro foi muito mais do que uma formalidade diplomática.
A Independência havia sido proclamada em 1822, mas o acordo de 29 de agosto de 1825 marcou o reconhecimento português da nova realidade política brasileira.
Portugal aceitava oficialmente a existência de um Brasil independente, enquanto o novo Império consolidava sua posição no cenário internacional.
A história também mostra que a Independência não aconteceu em um único dia. Ela envolveu conflitos, resistência, diplomacia, interesses econômicos, empréstimos e negociações entre algumas das principais potências daquele período.
O famoso 7 de setembro representou a ruptura política. Três anos depois, o tratado transformou essa separação em um acordo entre Brasil e Portugal.
Foi, em outras palavras, quando o “divórcio” finalmente chegou ao papel.
Fonte: gazetadopovo.com.br
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